segunda-feira, 22 de março de 2021

 



VESTIDA DE NEGRO










De negro vens tu vestida

Envolta na sombra cruel.

Vens sorrateira, escondida

Cravando nos corpos a dor

Como se fosse um cinzel

Nas mãos de um escultor.

Deixas cair lentamente

No chão, teu manto mordaz.

Sem decência abres o ventre,

Mostras do que és capaz.

Ergues um muro em redor

Daqueles que sem escolher

Viram roubar sem pudor

A vida que queriam viver.

E a sombra que te acompanha

Pelos vales onde caminhas,

Enegrece de forma estranha

A alma, fazendo-a temer,

Como a geada nas vinhas

Que as uvas deixa morrer,

E o vinho que delas saía

Mais doce que o puro mel,

Era o sangue que corria

Em lágrimas soltas num papel.

Da mesma forma partiste

Levando contigo o meu ser.

Com teu manto meu corpo cobriste,

Naquele dia ao entardecer.

E na sombra que te acompanhava

Esperavas ávida e fria

Enquanto minha alma secava

Enquanto meu corpo morria.