VESTIDA DE NEGRO
De negro vens tu vestida
Envolta na sombra cruel.
Vens sorrateira, escondida
Cravando nos corpos a dor
Como se fosse um cinzel
Nas mãos de um escultor.
Deixas cair lentamente
No chão, teu manto mordaz.
Sem decência abres o ventre,
Mostras do que és capaz.
Ergues um muro em redor
Daqueles que sem escolher
Viram roubar sem pudor
A vida que queriam viver.
E a sombra que te acompanha
Pelos vales onde caminhas,
Enegrece de forma estranha
A alma, fazendo-a temer,
Como a geada nas vinhas
Que as uvas deixa morrer,
E o vinho que delas saía
Mais doce que o puro mel,
Era o sangue que corria
Em lágrimas soltas num papel.
Da mesma forma partiste
Levando contigo o meu ser.
Com teu manto meu corpo cobriste,
Naquele dia ao entardecer.
E na sombra que te acompanhava
Esperavas ávida e fria
Enquanto minha alma secava
Enquanto meu corpo morria.


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